Entre a repetição e o projeto de futuro: um ensaio clínico psicanalítico


     Nos últimos tempos, é comum perceber, na clínica psicanalítica, pacientes — os quais chamarei de analisandos — apresentando uma espécie de “pré‑depressão”, frequentemente associada à reflexão sobre as circunstâncias atuais da vida, baseada no autojulgamento e na comparação. Nota‑se uma crise na perspectiva de futuro, o que implica falta de planejamento e afeta o comportamento do analisando, levando‑o a manifestações que a teoria freudiana relaciona à pulsão de morte. Entre as características mais comuns, destacam‑se:

·         Falta de autoconhecimento;

·         Tendência à comparação;

·         Postura vitimista.

 

     Detalharei um caso clínico para fins de comparação entre profissionais da saúde mental, com a finalidade de identificar padrões e, posteriormente, desenvolver práticas que tragam à luz, no contexto terapêutico, as motivações dessas pulsões, buscando restituir a autonomia do sujeito e favorecer a busca por aperfeiçoamento pessoal com foco no futuro, sem a tentativa muitas vezes frustrada de corrigir o passado.

Caso (Paciente X)

     X é uma mulher de 35 anos que iniciou a vida sexual precocemente, aos 15 anos. Ao longo da adolescência, envolveu‑se com diversos parceiros, abandonou a escola, engravidou do primeiro filho, enfrentou a primeira separação sem meios próprios de subsistência e passou a aceitar as oportunidades de trabalho que surgiam. Começou a frequentar ambientes de vida noturna como tentativa de lidar com aquilo que, por meio da análise, foi identificado como carência afetiva e necessidade de aceitação por pessoas que ela considera modelo de “normalidade”, segundo suas próprias palavras.

     À medida que se tornava mais presente em boates, bares e festas ao ar livre e, em meio a encontros sexuais descompromissados, conheceu aquele que viria a ser seu segundo companheiro. Ao tentar restabelecer uma vida conjugal monogâmica ao longo de três anos, deparou‑se com nova separação. Um dos maiores desafios no processo analítico foi romper a resistência para que X pudesse falar com maior liberdade sobre temas ligados à sexualidade. Após algumas sessões, foi possível compreender que aquilo que ela chamava de liberdade correspondia, mais uma vez, à tentativa de suprir sentimentos de rejeição decorrentes do relacionamento anterior.

     O que já era previsível acabou ocorrendo: um terceiro vínculo afetivo. Nesse momento, era esperado que certos padrões se repetissem. A vida que se delineava incluía o desejo de alcançar estabilidade financeira, conquistar a casa própria e obter emprego formal. Surgiu então o segundo filho. A esperança passou a se instalar no relacionamento, até que ocorreu o primeiro grande abalo: a traição. X foi abandonada pelo pai de seu segundo filho e retornou à casa dos pais.

     As tentativas frustradas de conquistar estabilidade econômica logo ficaram em segundo plano enquanto o peso de uma reputação associada a festas, álcool e múltiplas relações afetivas a levou a buscar uma espécie de redenção por meio da adesão à vida religiosa, algo relativamente frequente nesses contextos. Já nesse novo ambiente, e após o nascimento do terceiro filho com um membro da instituição religiosa da qual participava, enfrentou mais uma separação, decorrente de conflitos ligados à dinâmica familiar.

     Atualmente, mãe de três filhos, sem formação acadêmica e sem perspectivas claras, apresenta dificuldade para projetar o futuro. Segue um trecho de uma de nossas conversas, ocorrida em 15 de outubro de 2025:

“[…] Eu não sei o que fazer da minha vida, não tenho nenhum plano. Não tenho dinheiro para melhorar minha vida e nem viajar posso, porque estou presa aos meus filhos. Não tenho condições de voltar a estudar, porque acho que estou velha.”

 

 
 

 

 

 


     A paciente X apresenta diversos argumentos diante das tentativas de direcioná‑la a caminhos considerados mais práticos, como o retorno aos estudos. A cada sugestão surge um contra‑argumento, geralmente centrado na questão financeira. Após doze sessões de análise, considerei conveniente encaminhá‑la a um psiquiatra do CAPS Recife para verificar, por meio de avaliação clínica, a possível presença de fatores bioquímicos associados à depressão. O processo analítico continua e, após o início do tratamento medicamentoso, observou‑se redução da tristeza persistente; contudo, a dificuldade de planejamento permanece, exigindo continuidade do acompanhamento.

     O tema da gravidez na adolescência, quase um clichê sociológico no Brasil, é bastante recorrente. A falta de preparo dos pais em relação à educação sexual frequentemente deixa jovens desorientados e suscetíveis a consequências decorrentes da pouca experiência e da permanência do assunto como tabu em muitas famílias, sobretudo nas camadas populares.

     No caso da paciente X, um dos argumentos apresentados para não retomar os estudos é a falta de tempo. Entretanto, observei certa incoerência entre esse discurso e seu comportamento, pois ao longo das sessões ela mencionou jargões, termos e referências a figuras e acontecimentos típicos das redes sociais, especialmente do Instagram, o que sugere tempo considerável dedicado ao consumo desses conteúdos.

     Quando se fala em redes sociais, um universo muitas vezes idealizado é apresentado aos usuários, que nem sempre percebem seu caráter predominantemente comercial, no qual diversos produtos são oferecidos — inclusive estilos de vida. A exposição constante a imagens de sucesso, felicidade, produtividade e prosperidade pode gerar frustração por comparação, contribuindo para sentimentos depressivos.

    Como aponta a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, vivemos uma de crise do humano. Além disso, o tempo prolongado de exposição às telas pode reduzir momentos de reflexão pessoal, dificultando o autoconhecimento, já que os estímulos externos associados ao uso de dispositivos eletrônicos interferem diretamente na rotina dos indivíduos.

     Diante da impossibilidade de restringir o acesso da paciente às redes sociais, perguntei que tipo de conteúdo ela costuma acompanhar. Ela relatou interesse por programas sensacionalistas de fofoca, reality shows como o BBB e estilos musicais que frequentemente retratam relações amorosas intensas e instáveis. Não se trata de estabelecer causalidade direta, mas é possível considerar que tais referências simbólicas participem da construção de expectativas afetivas e da maneira como ela interpreta suas próprias experiências.

     O acompanhamento terapêutico segue em andamento, com foco na ampliação do autoconhecimento, fortalecimento da autonomia e construção gradual de projetos futuros possíveis.

     A paciente também apresenta um padrão de comportamento obsessivo-compulsivo que interfere em sua rotina cotidiana. Esse quadro parece estar especialmente relacionado à questão dos horários: quando alguém se atrasa, mesmo que por apenas um minuto, ela tende a encerrar a situação abruptamente — levantando-se e indo embora — ou a iniciar conflitos em função desse atraso, ainda que mínimo.

NOTA:

os termos que atribuem juízo de valor foram propositalmente escritos levando em consideração a percepção que a paciente tem de si mesma.


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